Thursday, December 6, 2012

Galeto e outras aves

Galeto
   Como todos sabem, sou médico veterinário, e a maioria das pessoas acham que, por ser veterinário, deveria entender de todos os animais, inclusive, alguns ainda acham que devo tratar nós, bípedes humanos. Mas não, a minha formação e especialização é apenas em cães e gatos. As aves para mim, até uns dois meses atrás eram seres bípedes como nós, mas para viverem livres ou nos alimentar. Na verdade, confesso que as aves para mim eram apenas para serem abatidas para me alimentar. Pouco reparava em aves de vida livre, muito menos os engaiolados.

Duda com o Galeto
   Até que um dia, a minha filha Duda resolveu que queria uma calopsita de aniversário. Não imagino o porquê, mas a mãe concordou com isso e pediu uma para o pai de uma amiga dela que cria esses seres alados. Foi escolhido um a dedo pelo veterinário da Prosilvestres, Dr. Júlio, que coletou material para sexagem, pois aparentemente um macho dá menos problemas do que as fêmeas, que invariavelmente são criaturas que ovulam e, no caso das aves e répteis, viram ovos que podem ficar retidas causando alguns problemas que os veterinários de silvestres adoram resolver. Foi então escolhido um macho de plumagem cinza com pintas amarelas. No início, eu fiquei ressabiado com a história de ter uma ave em casa, pois o meu histórico com aves se resume a, novamente, comida e três aves do tipo pet. E essa experiência com aves pet foram as piores possíveis, para mim e para eles.

   A minha primeira ave pet que tive, segundo relatos da minha mãe, foi um pombo desses de rua, que não sei por que a minha mãe catou em algum lugar, quando eu tinha tipo 3 ou 4 anos de idade e o guardava em um carrinho de feira, desses feito de arame. Segundo a dona Helena, eu tinha certo nervoso daquele bicho alado que morava num carrinho de feira e achava que ele era algo sujo (o que, de fato, não estava totalmente errado, mesmo com 3 ou 4 anos) e, cada vez que o via, jogava um balde de água supostamente para lavá-lo. Resumo, cada vez que o via, chuáááá, o pobre coitado levava um banho compulsório. Até que a minha mãe deve ter se dado conta da insanidade que fez e resolveu soltar em alguma praça pública de São Paulo. Talvez na mesma que ela catou. Isso também deve ter a feito repensar na ideia de ter outro filho.

   A segunda ave pet eu já devia ter uns 11 anos e, sempre que ia para as aulas de japonês no centro, aos sábados, passava em frente a uma daquelas lojas de ração, que serviram de rascunho para as pet shops atuais. E via aquelas gaiolas horizontais lotadas de pintinhos. Juntei uns caraminguás por muito tempo até ter o suficiente para comprar um desses pintinhos. Confesso que não me lembro muito bem o que a minha mãe falou quando cheguei em casa com uma pseudo galinha ou galo, pois quando há uma estridência na voz das pessoas histéricas, meu cérebro simplesmente bloqueia o que é dito. Talvez porque meus ouvidos não consigam ainda escutar sons que apenas os cães conseguem ouvir. E o tal pintinho chamado de Tiquinho (puxa, que nome mais original...), morou lá em casa por alguns meses e já começava a trocar a penugem por uma plumagem de frango. E um belo dia (claro que não era um belo dia, foi um dia horrível) eu pisei nele sem querer e agonizou por algum tempo até morrer. Fiquei arrasado. Lembro até hoje que minha mãe me levou ao Shopping Rio Sul para me distrair um pouco. Até entrar num fliperama (aos mais novos, Google it) que era algo terminantemente proibido para mim ela deixou.

   A terceira experiência foi a mais breve. Devia ter uns 14 anos e já tinha um gato alucinado em casa. Mas botei na cabeça que deveria ter um periquito, pois um amigo do colégio tinha um tuim (parece um papagaio miniatura, bem manso). Não me lembro de fazer uso de qualquer medicamento lícito ou ilícito que pudesse me causar esse tipo de alucinação a ponto de comprar um. Perto de onde eu morava, numa galeria tinha outra dessas lojas de ração pré pet shop que sempre tinha um gaiolão cheio de aves diversas. E resolvi novamente juntar uns trocos e mesadas para conseguir comprar um periquito. Lembro perfeitamente o dono da loja, um senhor magro e alto (ok, alto para mim não é um bom parâmetro) e que tinha um bigode parecido com o do seu Madruga. Aliás, ele era um sósia perfeito do seu madruga, exceto que ele não usava nenhum boné azul. E voltei para casa com um periquito desses verde e amarelo (mas que também poderia ser um amarelo e azul claro) dentro de um saquinho de papel pardo, desses de colocar pão, com uns buracos para que o bicho pudesse respirar e a parte de cima torcida para fechar. Ao chegar em casa, fui soltar e a surpresa! O bicho era bravo e saiu me bicando. E bicada desse bicho dói! O bicho voando pela casa, o gato tentando pegar o periquito e eu fugindo desse ser antissocial e agressivo até que ele entrou no banheiro e eu fechei a porta. O gato tentando pegar o periquito e eu tentando fugir dele. Só que ele entrou atrás do vaso sanitário, que normalmente tem um buraco e daí, não conseguia mais pegá-lo. Não me lembro bem como minha mãe conseguiu pegar o periquito, pois novamente ela emitia uns sons cuja frequência saía da faixa auditiva humana. E no dia seguinte, ela foi devolver o bicho pra loja onde havia comprado. Desde este dia, aves para mim era apenas comida.

   E algumas décadas depois, chega em casa este serzinho emplumado com um topete imponente que foi carinhosamente chamado de Galeto.

   O mais interessante é que aparentemente ele me escolheu como dono. Compramos uma gaiola grande, brinquedos, ração e mistura de sementes e potes para água e a comida. Teoricamente, a Duda deveria ser a responsável por ele, trocando água e comida e o jornal do fundo da gaiola todos os dias, mas ela ainda é muito pequena e acabou sobrando para mim. Durante umas duas semanas, ele estava lá feliz na gaiola, era tirado para brincar fora comigo e com as crianças e eu achava que ele estava bem. Mas um dia, quase no fim do dia a babá me liga desesperada dizendo que o “passarinho” da Duda tava mole e sem se levantar. Voei para casa, e quando o peguei deitado na gaiola vi que ainda estava vivo e voltei correndo para a clínica para ser atendido pelos veterinários da Prosilvestres. Como havia o relato de que a Duda tinha passado a tarde inteira brincando com ele e ele não comeu por isso, achava que poderia ser uma hipoglicemia absurda e fiz a Duda ir comigo para ver o atendimento.

   A primeira veterinária que o avaliou, a Dra. Loide, olhou para o Galeto com olhos tristes, preocupados, quase desanimados e disse de forma tão meiga: - PUTA QUE PARIU... E começou o tratamento. Soro, vitaminas, glicose e antibióticos mil para que ele reagisse. Até que ele começou a dar sinais de vida novamente. Tinha passado a primeira noite com o outro veterinário, Dr. Rafael. Ele ainda está internado, mas apenas para ganhar peso e terminar o ciclo de antibióticos. Quando ele chegou em casa pela primeira vez, ele estava com 77 gramas. No dia da crise ele estava pesando 54 gramas! Estava desnutrido e desidratado ao extremo. Hoje, ele já ganhou peso e está com 86 gramas, por alimentação forçada por sonda durante vários dias até ele voltar a comer sozinho. O importante nessa confusão é que eu, num primeiro momento, achava que a culpa era da Duda, mas na verdade, a culpa era minha, pois como nunca tinha tido uma ave, não tinha ideia de como saber se ele estava se alimentando ou não. Eu o via enfiando a cara no potinho com as sementes e rações e achava que ele estava comendo e na verdade ele deve ter passado vários dias sem se alimentar e, consequentemente sem beber água também. Quando me informaram que o caso era decorrente de vários dias, pedi desculpas a Duda. A culpa era toda minha pela minha ignorância com animais que não cães e gatos.

   Ele já está na internação há mais de um mês e já próximo da alta clínica. É um bicho fascinante. Desde antes de ficar doente, ele já reconhecia a minha voz e ao ouvir ele começava a piar até que eu o pegasse. E isso não mudou. Chego à clínica e lá de baixo ele fica piando até eu aparecer para ficar com ele. E quando a Duda fica com ele, ele não sossega, fica agitado, inquieto e deixa a pobre criança frustrada... Durante a internação, eu ficava assobiando o hino do Palmeiras. E não é que hoje, quando eu o ignoro, ele começa a ensaiar o hino? Ainda tá aprendendo, mas dá pra perceber a entonação diferente para chamar a atenção.

   Um dia desses, a Raphaela foi na internação pegá-lo para ficar um pouco com ele e ele foi na boa. Até me ver. Assim que me viu, ficou se jogando até vir pro meu ombro. Uma vez no meu ombro, a Raphaela o chamava pra voltar pra ela e ele simplesmente virava a cara pra ela! E quando ela esticava o dedo pra ele empoleirar, ele empurrava o dedo dela com o bico. Faz isso porque sabe que a mulé é braba. Hoje, a Duda tentou ficar com ele, mas ele sempre voltava para mim. A Duda tentava fazer carinho e ele bicava o dedo dela! Até outras pessoas desconhecidas para ele que tentavam apenas fazer carinho nele, ele bicava!

   Embora algumas pessoas insistam em chamá-lo de galináceo topetudo, Neymar e outras coisas, é um psitacídeo. E para lembrar é fácil: Ele é um caloPSITAcídeo.

   Nunca pensei que fosse ser tão querido por uma ave, que até então era basicamente sinônimo de comida. Deu fome e acho que vou devorar um galeto por aí. Um galeto, não o Galeto.

Wednesday, March 23, 2011

Adote um cão e/ou gato, mas pense antes

Pareço um poodle?

Na última segunda feira, dia 21 de março, a nossa amiga Daniela Prado trouxe dois cães filhotes resgatados de Teresópolis, de um abrigo, pois estavam muito parasitados e extremamente debilitados. Um deles já chegou morto aqui na clínica e o outro praticamente morto. Eram irmãos de ninhada. O que ainda estava vivo estava numa apatia tal que sequer abria os olhos. Colocamos em fluidoterapia, pois estava bem desidratado e magro. Após, algumas horas de fluido ele dava sinais de que iria melhorar. Abriu os olhos, já ficava em posição de esfinge e até se levantou para fazer xixi e soltar uma diarréia assustadora. Durante toda a tarde ele ficou bem, até que próximo a noite começou a ficar fraco, vomitar e infelizmente também se foi.



Praticamente um schnauzer branco
 
 





Na verdade, não escrevo este post para deixar ninguém triste com a história. Escrevo para mostrar que além dos animais resgatados na época da enchente na região Serrana, muitos outros cães e gatos (e até outros animais) continuam sendo abandonados nos abrigos e nos arredores. Alguns chegam em estágios terminais, mas outros tantos ainda têm chances com tratamento e cuidados necessários.

O maior problema é a superlotação dos abrigos e a diminuição na captação de recursos, uma vez que, passados dois meses da tragédia, as doações já não são tão abundantes quanto na época logo após o ocorrido.
Uma forma de diminuir a superlotação é a adoção dos cães e gatos lá residentes em condições difíceis, com o esforço dos voluntários e colaboradores que tentam manter tudo, ainda longe do ideal, mas sempre com o máximo de boa vontade e dedicação.

Existem cães lá de todos os tamanhos, idades, machos e fêmeas (que serão devidamente castrados antes da adoção). Claro que um cãozinho filhote sempre será mais "bonitinho" do que um mais velho ou até mesmo os mais velhos. Vendo nessas fotos, uma coisa que se torna praticamente certa em todas é a expressão de tristeza, melancolia, de desânimo. Coisa que pode ser mudada indo para um lar onde possa receber carinho, atenção, que possa até bagunçar um pouco, mas que tenha certeza de que não será novamente abandonado à própria sorte.
Não tenho uma orelha
Tem gente que prefere filhotes, pois sempre temos a vontade de criá-los desde pequeno, mas para quem não tem muito jeito ou paciência para passar pela fase de filhotes, há os cães já adultos, sejam jovens, sejam idosos. O que me deixa triste é saber que alguns desses cães, principalmente os mais idosos podem morrer sem nunca saberem o que é ter o aconchego de um lar e carinhos exclusivos.

Velhinho e carente
 





Dois quase salsichinhas

Isolamento para cães agressivos
Sei que adotar um animal não é um procedimento que qualquer pessoa possa fazer, mesmo com a maior boa vontade do mundo, pois envolve principalmente o fator financeiro. Ser proprietário de um cão ou gato é sinônimo de gastos financeiros constantes com alimentação, veterinário, vacinas, eventuais medicamentos e se dispor de dar um mínimo de atenção e carinho para o animal. O cãozinho ou gatinho come, bebe água, faz sim xixi e cocô, que fede e dá trabalho. Se for um cão, depois das vacinas, se for um filhote, vai precisar passear na rua diariamente, se exercitar e esticar os músculos para que mantenha sua cabeça longe de idéias como roer móveis, fios de telefone, da TV a cabo, chinelos e outras coisas da nossa rotina. E gatos, que não saem de casa, mas que também necessitam de atenção. Gatos costumam arranhar móveis, subir na cama, subir na pia. Ter um animal de estimação significa ter gastos e, de certa forma, abrir mão de muitas coisas da vida, como viagens longas. Digo “de certa forma” porque hoje em dia existem hotéis ou canis de hospedagem como o Canil Monte Olivete e pessoas que cuidam de gatos na própria casa como a Catsitter dos Sonhos. Claro que isso tudo tem um preço, que muitas vezes não são proibitivos. Mas é aquilo, se quer conforto, temos que pagar por ele.
 

 

 














O mais importante é nunca adotar qualquer animal por impulso. Pense bem, pondere, avalie os custos/gastos e sua disposição para adotar um. Não vá pela cabeça do vizinho ou do cunhado que tem certeza de que você precisa de um gato ou um cachorro. Quem tem que ter certeza disso é você mesmo.

Tuesday, March 22, 2011

Academia

Eu nunca fui alguém com atributos desportivos e nunca fui incentivado a ser um atleta. Quando era apenas uma criança, descobri que gostava de futebol e sempre que podia estava lá jogando futebol com a molecada, seja do prédio onde morava, seja da escola. E sempre falava para minha mãe que queria ser jogador de futebol profissional, coisa que minha mãe sempre ignorou solenemente.

Jogava no gol, era baixinho e por isso ninguém levava muita fé, mas não tinha medo de me jogar para agarrar uma bola ou dividir na entrada da área com algum guri muito maior que eu, o que me levou a constantes fraturas, luxações, edemas, hematomas e outros traumas. E com isso consegui certo respeito quando estava lá na longínqua quarta série do primeiro grau.

Depois, muito tempo depois, quis fazer alguma luta, afinal, pelo meu tamanho, peso e porte, era sempre o saco (magro) de pancada dos “amiguinhos” da escola. Sim, o bullying sempre fez parte da minha vida. Quer dizer, da minha vida de adolescente. Era sempre o mais novo da sala, o mais baixo, o mais leve, o mais tímido, o mais fraco, o mais burro e o mais chorão. Mas novamente, minha mãe nunca me incentivou a esse tipo de esporte. E, finalmente aos 13 ou 14 anos, depois de muita insistência, comecei a fazer karatê numa academia chamada Kobukan, que era de um senhor magro, velho, enrugado, japonês (óbvio), que lutava muito chamado mestre Tanaka. Que, por coincidência era amigo do meu pai. Não sei se ele tinha algum problema com meu pai, pois ele sempre me colocava pra lutar com alguém que facilmente tinha o dobro e até o triplo do meu peso. Ou nos exercícios de abdominais ele ficava pisando e pulando sobre a minha magra barriga. Ainda bem que ele devia ter no máximo uns 60 quilos (ou menos, sei lá) e conseguia sustentar seu peso sobre o meu umbigo. Claro que mesmo sendo um pobre faixa branca, mirrado e esquelético, os que vinham lutar comigo deviam achar “ah, o cara é japonês... Sei lá... Vai que... Dane-se, vou quebrar ele antes que ele me quebre”. Como se isso fosse possível pra alguém que devia pesar uns 50 quilos no máximo. E sempre chegava em casa todo roxo. Até que cansei de apanhar e resolvi largar essa vida.

Eu sempre tive péssima impressão de academias de ginástica e musculação. Sempre achei que era um lugar onde todos eram marombeiros, todos ultra fortes, musculosos e que iriam rir de mim quando entrasse numa. Por isso, nunca me interessei por essa parte. Me lembro que no final da faculdade, quis entrar numa academia que era em frente, era só atravessar a rua. Mas quando fui conversar com um cara que deveria ser algum professor mal pago de lá, fui praticamente desencorajado a fazer musculação e qualquer outra coisa por lá. O sujeito me perguntou se eu fazia algum esporte e prontamente disse que corria (muito esporadicamente, algo do tipo uma vez por semana, se não chovesse). Ele, calmamente, me disse que isso não era exercício físico algum e que a musculação deveria servir apenas para complementar outro esporte. E não fez a minha inscrição. Juro.

Fastforwarding alguns anos, depois que a Eduarda nasceu e a mãe dela resolveu que ela deveria fazer natação, nos matriculamos todos na academia Fórmula da Água, em Copacabana, perto da clínica. A Duda pra natação e eu e a Raphaela para aeróbico e musculação. Eu e a Duda continuamos até hoje e a Raphaela, no início, ia dia sim, duas semanas não. E desistiu.

Eu sempre achei o ambiente da academia muito peculiar. Tinha pessoas que eu via e encontrava na academia todo dia, seja na musculação, ou seja, na esteira, mas que nunca falavam comigo e, mesmo encontrando essas pessoas na rua, em outros lugares, pareciam que elas nunca tinham me visto. Ou, vai ver, elas realmente nunca me viram ou prestaram qualquer atenção em mim na academia. Ou realmente me ignoravam mesmo. Com o passar dos anos (sim, dos anos mesmo) algumas pessoas começaram a falar comigo. Talvez por pena daquele japonês franzino que sempre tava com alguma camisa do Palmeiras. E hoje em dia ainda tem muita gente que ignora, mas vi que não é uma coisa pessoal. É alguma coisa de academia que ainda não sei direito o que é. Pensando bem, isso também acontecia no Ibeu. E também num curso de computação que fiz há décadas (estudei Basic e não aprendi nada, num TK 83). E em alguns cursos de veterinária. Acho que o problema sou eu mesmo.

Sunday, February 27, 2011

Reflexões sobre algumas coisas

Algumas coisas que a gente ouve falar ou vê em noticiários, jornais, revistas e outros meios de comunicação que deveriam servir para informar e não desinformar. Irrita-me profundamente quando algum sabichão vem para tentar colocar informações sem qualquer fundamento prático, lógico ou científico. Talvez por ser médico veterinário, talvez pela minha eterna curiosidade científica em diversas coisas mesmo as não relacionadas com a minha área de atuação ou trabalho.

Uma das coisas é quando dizem que se deixarmos a água da torneira aberta sem necessidade, por desperdício, a água do mundo irá acabar um dia. Não, não irá acabar a água do mundo. O volume de água existente no planeta Terra é constante e nunca irá mudar, a não ser que o mundo literalmente exploda. A água, como se sabe desde as aulas de ciência da segunda série do primeiro grau (sim, sou da época que tínhamos no ensino fundamental o primeiro grau, que ia da primeira série até a oitava, e a segunda, que ia novamente da primeira série a terceira, quando terminava o “científico” ou ensino médio) lá da tia Maricotinha que ensinava que a água existente nos mares, rios, lagoas e até das poças d´água na rua, com o calor, evaporava e virava nuvem. Essas nuvens se acumulam até saturarem e precipitavam em forma da conhecida chuva e esse ciclo continua indefinidamente. Lembro de um pequeno experimento que tinha no meu colégio, que era um grande aquário com terra e uma lagoinha no meio com algumas plantinhas em volta. Tudo isso fechado hermeticamente com uma tampa de vidro. E víamos que a água empoçada evaporava sob o sol e formava gotas de água que se acumulavam na tampa de vidro, que eventualmente pingavam de volta ao fundo do aquário.

Ou seja, a água não irá acabar na Terra. Eu entendi a mensagem que quem quer que seja tentou passar para evitar o desperdício, de que a água é um bem limitado e caro. Mas a água, repito, não irá acabar, mas se tornar escassa na forma potável. O não tratamento de esgotos domésticos e principalmente os industriais e hospitalares é que é o ponto crucial para que a forma usável e potável se torne escassa.

Outra coisa que me transtorna é a falta de conhecimento técnico e científico de alguns médicos, em especial os obstetras. Não são raras as vezes que alguma cliente que possui animais domésticos, em especial os gatos, perguntam como fazer para haver um convívio seguro entre gestantes e felinos.

O problema todo entre felinos e gestantes é a doença conhecida como toxoplasmose. A toxoplasmose é causada por um agente unicelular, um protozoário chamado Toxoplasma gondii que em gestantes pode causar má formação do feto, assim como outros problemas mais sérios incluindo o aborto e problemas para a própria mãe. O gato é o grande “vilão” nessa história toda, pois é nele que o parasita realiza o ciclo completo, ou seja, a forma assexuada e sexuada de reprodução. E é o gato que elimina nas fezes os chamados oocistos que são formas produzidas de forma sexuada de reprodução do parasita.

Porém, os oocistos eliminados pelos gatos, em geral quando filhotes, extremamente parasitados, imunocomprometidos e normalmente com diarréia, são os que devem ter uma atenção maior. Mesmo estes gatinhos parasitados, eliminam os oocistos por 10 a 20 dias. Estes oocistos são eliminados nas fezes em forma não esporulada ou não infectantes. É necessário de um a cinco dias, dependendo da umidade, temperatura e oxigenação ideais para se tornar esporulada ou infectante. Ou seja, mesmo que acidentalmente haja ingestão de oocistos recém eliminados pelas fezes de um gato, não irá causar qualquer problema relacionado à toxoplasmose. O que não quer dizer que não seja nojento e que não possa ter outras doenças como parasitoses intestinais por endoparasitos (traduzindo, verminoses). Alguns médicos dizem que pombos também eliminam oocistos pelas fezes, o que não é verdade. Qualquer animal de sangue quente pode se infectar com o toxoplasma, mas quem elimina nas fezes, efetivamente, são os gatos nas condições citadas acima. Aparentemente, os caprinos podem eliminar a forma de taquizoítas pelas fezes, mas não acredito que alguém na cidade tenha uma cabra ou um bode em casa. E se tiver, evite o contato com as fezes, como seria com os dos gatos.

Por várias vezes, tive que ouvir de clientes que têm gatos dizerem que estão grávidas e que o(a) médico(a) obstetra ordenou que se livrasse imediatamente do pobre felino que mora com a mulher há anos, estando com vermifugação e vacinas em dia, sem qualquer sinais de doença relacionados a toxoplasmose. E a minha resposta a pergunta inevitável: - “doutor, o que eu faço? A doutora mandou sacrificar o meu gato!” será sempre a mesma: mude de médico.
Pior, quando alguém tem um cão e a “dotôra” manda se livrar dele por conta da toxoplasmose. Ou seja, provavelmente essa profissional faltou às aulas de doenças infecto contagiosas (DIC) e de doenças infecto parasitárias (DIP). Desde quando um cão é capaz de transmitir a toxoplasmose? A não ser que o proprietário resolva ingerir o cão como um sashimi canino (admitindo-se claro, que o cão esteja com toxoplasmose), a saliva ou as fezes do cão NÃO IRÃO SER FONTE DE INFECÇÃO DE TOXOPLASMOSE.

Engraçado é que estes mesmos doutores esquecem de avisar a gestante que a forma mais fácil de se infectar com o toxoplasma é através da ingestão de carne mal cozida, em especial a carne suína. Mas também a bovina. Não comer carpaccio ou aquela picanha suína mal passada pode ser mais perigoso do que ter um lindo gatinho saudável.

Isso não quer dizer que as gestantes se tornem displicentes com a higiene básica, principalmente as que têm gatos. Lavar as mãos sempre que mexerem nos bichanos com água e sabão, principalmente antes de pegarem em comida ainda continua sendo algo muito importante para sua saúde e para o bebê que está por vir. Além de ser nojento comer qualquer coisa com pelos. Evitar beijar o gatinho, por mais fofinho e irresistível que ele possa ser também faz parte da sua segurança. E o mais importante, evitar trocar a caixa de areia, que, se limpa uma a duas vezes ao dia, a chance de se infectar por toxoplasma se torna mínima. Deixe essa tarefa para o pai da criança ou para a doméstica. E mesmo que seja uma mãe solteira, sem ninguém além do gato e da criança que está por vir, troque pelo menos uma vez ao dia e use luvas, dessas amarelas grossas que vende em supermercados. E depois disso, lave bem as mãos com água e sabão. Beba água filtrada e se possível, fervida. Leite apenas pasteurizado. E durante a gestação não coma carne crua ou mal passada. Esqueça aquela carninha de churrasco do cunhado na laje que está pingando sangue e mugindo, que ele comprou naquele açougue que vende carne baratinho, de origem duvidosa.

Para as mulheres gestantes mais neuróticas que tenham gatos, pode-se solicitar uma sorologia do próprio felino para titulação de anticorpos anti-toxoplasma, para saber se o bicho já teve algum contato com o parasita. Um site bem resumido está aqui: http://www.health.vic.gov.au/ideas/bluebook/toxoplasmosis

Lembro que uns anos atrás uma famosa atriz global já bem velhinha morreu em decorrência da toxoplasmose. Aí, começaram os questionamentos sobre a tal doença, que matou a tal atriz. Se até uma atriz global poderia morrer por toxoplasmose, o que dirá a nós, meros mortais. Mas sabendo do histórico das condições onde a atriz morava, era meio que óbvio que isso poderia acontecer. A atriz tinha dezenas de gatos morando em um apartamento completamente insalubre, sem o menor controle de entrada de novos gatos e todos misturados (adultos e filhotes) urinando e defecando pela casa toda. Infelizmente, os desavisados impressionados com a história acabam por disseminar um preconceito contra animais que levam a fama apenas porque neles o ciclo se torna completo do parasita.

Mais tempo atrás, um médico tinha dado uma entrevista na revista Veja dizendo que a toxoplasmose era transmitida através da saliva do cão infectado! Meu Deus, onde será que este senhor estudou? Ou melhor, não estudou? Ou se estudou, aprendeu errado?

Aos médicos que se sentiram ofendidos por este post, por favor, antes de qualquer coisa, pesquisem, leiam livros, leiam periódicos científicos, procurem no Google, se for preguiçoso, mas tenham embasamento antes de virem com pedras na mão pra discutir comigo. E os veterinários que passam pelos mesmos questionamentos pelas gestantes, usem os seus conhecimentos e citem literatura científica para provar o seu ponto e não se intimidem.

Ah, e gato preto não dá azar.

Assistindo o Fantástico do dia 27 de fevereiro de 2011, sobre desvio de dinheiro público em cidades da região norte, mostrou um lixão onde é depositado até lixo hospitalar e de pessoas que acabam se machucando por causa de agulhas de seringas utilizadas em pacientes de hospitais com deus-sabe-lá-o-que-pode-ter. E num determinado momento, o médico infectologista diz que uma agulha dessas pode até transmitir o vírus do HIV para alguém. Como médico infectologista deveria saber que o vírus do HIV é um vírus extremamente frágil quando fora de um organismo vivo. Sua sobrevida em restos hospitalares como um sanguinho dentro de uma seringa é de apenas alguns minutos, quiçá horas, dependendo da quantidade de material orgânico onde se encontra (normalmente sangue). Ou seja, naquelas montanhas de seringas com agulhas cheias de lama, sujeira de dias, semanas e até meses, o vírus nunca irá sobreviver para infectar algum incauto que se fure com essas agulhas. E no final das contas, mesmo a hepatite c citada pelo médico, é também de difícil infecção, pois no ambiente externo consegue sobreviver por horas até no máximo quatro dias. E se esqueceu de falar de uma doença grave que é o tétano, causado por um bacilo, o Clostridium tetani, que esse sim, sobrevive e prevalece em diversos materiais como metais enferrujados, terra, vidro etc. E o infectologista não citou.

É claro que o lixo recém dispensado de forma incorreta ainda pode conter formas infectantes de HIV, hepatite B e C e outras doenças, logo, o cuidado é fundamental, não importando se é em área de gente de bom poder aquisitivo ou nos lugares em questão da reportagem onde o lixão é em frente à casa de uma senhora. Mas a má gestão pública em questão não é o assunto aqui.

Falando em HIV também me irrita quando algum idiota fala que “homem não pega AIDS de mulher”. Claro que pode haver infecção de mulher para homem. Menos provável do que o contrário, do homem para a mulher, mas biologia não é ciência exata. E existe sim a chance de contágio. Então, deixa de ser imbecil e para de dar chance ao azar. Encapa o bilau e pronto.
Alguns anos atrás rolava na internet um texto alarmante de uma suposta vítima que teria sido infectado com o vírus do HIV, ao sentar numa poltrona de cinema onde algum malvado teria colocado estrategicamente uma seringa com sangue de soropositivo. Ao se sentar, teria injetado o sangue e essa pessoa ainda leria um bilhete dizendo que ele agora seria um HIV positivo. Lenda urbana. E aliás, pra alguém conseguir colocar uma seringa em pé numa poltrona de cinema, junto com um bilhete dizendo que o cara se fufu, é realmente não ter qualquer noção de como se portar dentro de um cinema. Isso tanto pra quem colocou quanto pra quem sentou sem olhar antes. Também ninguém vai ser convidado para uma festa cheia de mulheres esculturais dando mole e depois acordar numa banheira cheia de gelo num quarto de hotel sem os rins, depois de levar um “boa noite, cinderela”.

Acorda!

Saturday, February 5, 2011

Bina

Eu sempre gostei de fotografia e câmeras fotográficas, como todo filhote de japonês. Antes mesmo de me formar em veterinária, já tinha comprado uma câmera profissional da Canon, de filme normal, pela loja B&H em Nova Iorque, mas por telefone. E me lembro da primeira vez que tinha visto uma câmera digital. Era uma Sony Mavica que armazenava as imagens em um daqueles disquetes de 3 e 1/2 com capacidade de 1,44 Mb de um professor mais geek da faculdade. E a primeira câmera digital que pude realmente manusear sozinho foi uma Nikon E 2100 que meu pai tinha trazido para a Raphaela. Uma câmera de apenas 2 Mp de resolução, mas que tinha uma qualidade de imagem muito boa. Aquelas coisas mágicas que a foto pode ser vista na hora em que era tirada, sem ser uma Polaroid. Como a câmera passava mais tempo comigo do que com a Raphaela, usava ela para fotografar tudo que via, já que não precisava mais revelar em papel para saber se tinha ficado boa ou não.

Para que estou falando sobre câmeras digitais sobre o assunto "Bina"? É porque, a Bina foi o primeiro caso que tinha fotografado com uma câmera digital.

Eu tinha um consultório veterinário com um sócio antes desta clínica que tenho agora. Um dia, um rapaz aparece na porta do consultório perguntando se eu era o Marcos André. Eu disse que meu nome era Marcos, mas não André. Ele falava ao celular com alguém e esse alguém confirmou que meu nome não era Marcos André (desde a época de estudante, a Renata sempre me chamou de Marcos André, não sei o porque), mas que era eu mesmo que deveria ser procurado. E a pessoa do outro lado se identificou como Renata, também veterinária do Exército, que eu tinha sido estagiário durante a minha graduação. Este rapaz, irmão da Renatinha, como a conhecia me pedia para ir atender com urgência uma cachorrinha da raça boxer de seis anos de idade de uma amiga que estava muito mal.

Era um histórico meio confuso, onde aparentemente uma cirurgia prévia tinha dado errado e justamente quem fez a cirurgia tinha sido meu ex sócio. Chegando à casa da mãe da proprietária, vi a boxer de nome Bina em pé, abandando o rabo freneticamente feliz em estar recebendo a visita do “tio” e de um estranho. Chegando mais perto, vi que um saco plástico estava atado na barriga dela, com um aspecto úmido, sanguinolento. Desamarrei o saco levemente e vi que dentro dele tinha uma parte do intestino dela, eviscerado por um orifício de origem cirúrgica. Como na casa da tal senhora pouco teria como fazer algo, removemos para o consultório para poder avaliar melhor a situação.

Já no consultório, com a ajuda da Raphaela, na época uma estagiária, retiramos o saco plástico e vimos que uma parte do intestino delgado estava eviscerado e como o orifício cirúrgico havia contraído, provavelmente por dor, já se encontrava com uma coloração arroxeada e com vários pontos de necrose.

Durante a avaliação, a proprietária mesmo chegou em prantos apenas para se despedir da amiga canina e viu ela em pé na mesa de atendimento abanando o rabo para ela. Sem entender direito o que se passava, iniciamos uma conversa que, em tese deveria ser demorada, mas não tínhamos um tempo hábil tão extenso e a única coisa que a Ana Paula queria saber era o quanto ela tinha de chance de sobreviver reoperando a Bina. Não tenho essa capacidade de responder isso, mas pelo aspecto clínico geral da Bina e do intestino dela, disse que seria em torno de 10 a 30% de chances. E ela topou submetê-la a outra cirurgia e levamos para a clínica do meu anestesista, onde seria realizada a cirurgia.

Durante o trajeto até o Jardim Botânico, onde é a clínica, fomos conversando e alguns pontos foram sendo esclarecidos. Cerca de uma semana antes, ela tinha sido operada pelo meu ex sócio de piometra (infecção uterina grave), diagnosticado por ele. E, no dia fatídico, ele tinha tirado os pontos externos da cirurgia. A proprietária levou a Bina para a casa da mãe dela onde tinha ficado até os pontos tirados possivelmente de forma precoce romper e eviscerar. A proprietária ligou para o veterinário responsável pela cirurgia e, mesmo sem ver a paciente, condenou-a dizendo que não teria mais jeito e que iria “sacrificá-la”. Mas que ele não poderia sacrificar naquele momento, pois estava em algum lugar longe e que iria resolver a situação lá pelas nove e meia da noite do mesmo dia. A Ana Paula, que é leiga, realmente achou que a cadela estava condenada, mas queria que fosse o quanto antes, pois não queria que a Bina sofresse mais. Foi quando o irmão da Renatinha me procurou. O diálogo com a Renata por celular foi mais ou menos a seguinte: Ela: “Marquinhos, como é a sua relação com seu sócio?” Eu: “a pior possível...” Ela: “ainda bem” e me explicou por alto o que havia acontecido.

Operamos a Bina e durante todo o procedimento cirúrgico, não houve qualquer alteração na qualidade da cirurgia nem da anestesia. Infelizmente, a parte do intestino que havia ficado garroteado para fora do abdome estava irrecuperável, com necrose, e houve a perda de cerca de 50 cm de intestino delgado.

Ela ficou cinco dias internada na própria clínica do anestesista, pois após um procedimento de enterectomia (retirada de parte do intestino) e anastomose (“reunir” o restante viável do intestino) é necessário um rigoroso controle alimentar para que essa união do intestino não seja rompida. E ela saiu bem. Saiu com meio metro a menos de intestino, com alguma deficiência em absorção de nutrientes, mas feliz como sempre foi. Aliás, feliz com humanos, mas uma fera alucinada com outros cães. E assim passaram-se quase oito anos. Uma cachorrinha magrinha, já com o focinho com pelos brancos dócil e simpática com humanos e nem tanto com outros quadrúpedes.
A Bina comigo oito dias após a nova cirurgia
Hoje, dia 5 de fevereiro de 2011, após uma semana sem se alimentar direito, sem conseguir se levantar mais pela idade e suas conseqüências, a Ana Paula trouxe a Bina para descansar em definitivo. A Bina não foi “sacrificada” como iria fazer o meu ex sócio, mas foi realizada a sua eutanásia. Com todo respeito e dignidade que ela merece. Ela viveu mais tempo do que tinha de vida quando aconteceu o fato. E a Bina foi encaminhada para cremação.
Bina com a Raphaela

Sunday, January 30, 2011

Empregadas Domésticas Domesticadas

Nasci em São Paulo, de pai japonês mesmo e de mãe brasileira, paulistana, mas de pais japoneses e por isso, a primeira língua que aprendi foi o japonês, antes mesmo do português. E aprendi o português assistindo televisão, que na época ainda era preto e branco. Esta introdução aparentemente é totalmente fora de contexto, mas irão entender mais adiante.

A primeira empregada doméstica que trabalhou na minha casa, ainda em São Paulo, se chamava Nara. Só que "onará" em japonês significa flato. Peido. Pum. Ou seja, desde pequeno eu tinha crises de riso apenas por chamar a empregada pelo nome. Ficar o dia inteiro falando: - “ô, Naraaaaa!”, me rendia horas de riso que, aparentemente, esta doméstica não tinha a menor idéia do porquê. Era uma senhora meio gorda, pesada, que uma vez, ela foi subir num banquinho na área para pegar alguma coisa e, escorregou do banquinho e caiu em cima do tanque de lavar roupas, de granito áspero e quebrou o tanque! O mais impressionante é que ela não sofreu nada. E por pouco não caiu lá pro subsolo.

Depois dela, veio outra doméstica, carioca, de cabelos curtos chamada Janete, que foi citada no post anterior. E como disse no post anterior, eu a chamava de “lanchanete”. Era uma idiota completa. Além do ocorrido com a senhora idosa, que era minha babá, que desmaiou e ela simplesmente disse: -“ah, ela só desmaiou” e nada fez, lembro de uma noite que a cama dessas dobrável, com armação de metal com molas desmontou e ela caiu no chão. Isso porque ela dormia no mesmo quarto que eu, pois a casa era pequena e, durante a noite, ela funcionava como uma babá noturna. Ela também me levava eventualmente para a escola e, apesar de não entender corretamente o dialeto estranho que ela falava, a gente conversava muito. Obviamente, não me lembro de qualquer diálogo, mas lembro que ela falava as coisas começando em segunda pessoa e não concordava o verbo, como todo carioca. Ou seja, ela falava: - “tu vai pra escola...” e eu não entendia o “tu”. Tentava encaixar o “você” no lugar de “tu”, mas sabia que não era “você” que ela falava de forma alguma. Sendo paulistano, soava esquisito para mim. Minha mãe mandou ela embora depois que ela soube que a Janete não deixava eu assistir os programas que eu queria assistir, provavelmente “Vila Sésamo” com aquele pássaro azul (Garibaldo, acho – ok, a televisão era preto e branco, mas em revistas, via que era azul e na versão atual é amarelo) e a atriz Sônia Braga (ok, isso eu vi numa pesquisa rápida no Google), e outros programas como os Três Patetas (The Three Stooges - eu gostava da formação original, Moe, Larry e Curly. O Shemp é chatérrimo), um outro super herói esquisito chamado Esper (que não é o Ronaldo – é o Light Speed Esper) e Thunderbirds, um programa tipo Star Treks, só que de bonecos de marionetes muito bem feito pra época. Meu pai também trazia os brinquedos desses programas quando ia pro Japão, o que reforçou as minhas lembranças. Sim, a Janete me privava de assistir esses programas, pois ela queria assistir novelas ou outras coisas pouco interessantes para um moleque de poucos anos.

Deve ter tido outras domésticas na nossa casa até a gente se mudar para o Rio de Janeiro, mas não me lembro. E, desde que nos mudamos para cá, uma senhora negra, magra, de sorriso fácil chamada Josefa nos acompanhou durante décadas. Pelos meus cálculos imprecisos, deve ter trabalhado para minha mãe de 1978 até 2006, quando ela já não tinha mais saúde e minha mãe apenas pagava ela mesmo sem trabalhar por consideração. E, se não me falha a memória, ela faleceu pouco após o meu casamento ou após o nascimento da Eduarda. Como toda empregada doméstica, ela não fazia muita coisa, a não ser passar roupa. Ela tinha certa obsessão por passar roupas. A primeira coisa que fazia quando chegava à minha casa, por volta das seis da manhã, era passar roupas. Ficava horas passando roupas, alisando as roupas. Ela passava até meias, pano de chão, toalhas e outras coisas que normalmente ninguém passa. Mas limpar mesmo a casa, nada.

Depois que casei, a empregada que ia semanalmente era a D., que já era empregada da família da Raphaela há uns 20 anos. E, como ela é, na teoria, doméstica da minha sogra, a gente procurou várias domésticas e umas piores do que as outras.

Tinha uma, que era esposa do porteiro do prédio onde a gente morava, que trabalhava direitinho, não falava muito, mas eficiente. Durou pouco, pois ela não sabia lidar direito com bebês e, acho que com a vinda da Duda, ela se sentiu acuada, embora a gente nunca tenha feito ela tomar qualquer função de babá, não quis mais ficar.

Então, um dia, a Raphaela assistindo um desses "maravilhosos" programas vespertinos, soube da história de uma senhora que apareceu numa vinheta de alguma novela dizendo que, após ouvir uma música do Roberto Carlos, amanheceu “babada”. E, após a vinheta ir ao ar, ela foi demitida da casa onde trabalhava, por ser uma atitude incompatível e principalmente inconveniente para uma doméstica em uma casa com crianças.

A Raphaela, vendo o programa, resolveu ligar para a emissora e colocou o nosso telefone a disposição dela para entrar em contato conosco (dela leia-se, pois eu só fiquei sabendo quando já tinha ligado para a emissora). Ela começou a trabalhar na nossa casa e, acho que a fama momentânea dela subiu a cabeça. Era uma senhora já aposentada, mas exigiu da gente carteira assinada, mesmo a gente explicando que os benefícios recolhidos não iriam para ela, e sim para o governo. E aí, ela começou com um papo estranho de que a mãe dela era de sindicato de domésticas e outras coisas ameaçadoras. Após umas duas semanas, dispensamos. Durante o pouco tempo que ela trabalhou na nossa casa, ocorreu uma coisa que eu abomino. Eu tinha comprado um pote de Nutella. A Raphaela não gosta, logo, ela não come. A Duda tinha alguns meses e não seria capaz de pegar num armário alto. E num belo dia, quando abro o pote, vejo que alguém tinha comido parte e com garfo, pois tinha ranhuras de garfo em toda a superfície do chocolate. Eu mostrei para a Raphaela e perguntei se ela achava que eu deixaria a superfície daquele jeito e ela balançou negativamente a cabeça, me conhecendo e sabendo que nunca deixaria daquele jeito, e sim, liso como se fosse novo. Joguei fora o muito que ainda restava, com nojo.


Como a gente já recebia a visita esporádica de uma entidade que se diz faxineira, a D., e não tinha muitas outras opções, ela acabava vindo trabalhar na nossa casa. Eu tenho certeza de que ela é um ectoplasma perdida em algum lugar do limbo e não sei por que ela veio parar na família da Raphaela e assim ela acabou encarnando lá em casa. É uma criatura negra, forte, com feições assustadoras, e que tem uma capacidade incrível de fazer com que objetos da casa sumam e vão parar em lugares inimagináveis. Sabe aquela coisa meio Poltergeist, que num momento vê um remédio dentro da própria caixa, no criado mudo e, no momento seguinte, o mesmo remédio está fora da caixa e dentro do armário da cozinha, onde se guarda pratos? Ou, aquele engradado de leite longa vida que vem seis unidades, eu abro uma caixa e quando vou contar só tem quatro? O que me faz pensar até que eu não sei contar ou que tenho problemas graves com aritmética. Esta é a entidade D. Ela ainda vem aqui trabalhar, infelizmente. Como a Josefa que tinha uma obsessão por passar roupas, a obsessão da D. é lavar roupas na máquina de lavar. Ela deve ter orgasmos múltiplos vendo a máquina de lavar roupas funcionando. É impressionante. Se eu pego uma camiseta que apenas separo, não uso e coloco em cima da cama, em alguns segundos, ela aparece sendo chacoalhada com água e sabão em pó dentro da lavadora. Ela me vê pegando uma toalha limpa, nova e uso apenas uma vez, mas logo depois, já está a pobre toalha sendo lavada e outra toalha pendurada no cabide do banheiro.

Quando algo some da casa, e isso é uma coisa muito comum, no dia que ela vem trabalhar, é só ligar para ela que temos duas respostas distintas; uma é a famigerada e odiosa “não sei, não vi” e a outra é que ela consegue colocar coisas em lugares totalmente “nada a ver”. Com o tempo, a gente aprende a “pensar” como ela e procura nos lugares mais absurdos e lá está o controle remoto do DVD dentro da gaveta da pia do banheiro social. Ou o CD de instalação de algum hardware do meu PC dentro de um livro do Stephen King. Outras coisas se perdem para sempre e nem São Longuinho acha, mesmo dando três mil pulinhos.

As domésticas, de um modo geral, acham que não percebemos quando “some” um rolo de papel higiênico caro. Acham que nunca iremos sentir falta daquele único pote de iogurte que você está guardando para tomar ansiosamente no café da manhã. Ou que não reparo que a garrafa de refrigerante que tomei um copo está no fim. Eu sei quantas camisetas eu tenho e quais são as minhas favoritas, que aparentemente são as favoritas dos filhos ou maridos delas, assim como meias. Não me faça colocar números de série nas minhas roupas, para que assim eu saiba quais estão faltando e quais meias fazem pares. Não quero nem pensar sobre escova de dente.

Uma dica para as domésticas, não tentem “completar com água” a porção de shampoo que ela levou para casa em algum outro frasquinho. Que leve, mas não dilua a droga do meu shampoo. Quando eu comprei e eu abri pela primeira vez, eu gravei a consistência do produto e sei que não é tão higrófilo a ponto de transformar num líquido que escorre entre os meus dedos. Barras de chocolate não perdem uma fileira inteira por sublimação. Bebidas não evaporam com as tampas fechadas. Eu percebo quando um perfume que desapareceu por uma semana reaparece misteriosamente no mesmo lugar que procurei inúmeras vezes e com seu conteúdo bem abaixo da última vez que eu usei. Se quiserem ou precisar de algum item que eu comprei, peça. Pode ser que eu dê sem o menor problema. Levar sem o meu consentimento se chama furto. Fica a dica.

Saturday, January 22, 2011

Babás e babás

Eu nunca tive uma babá para cuidar de mim, que eu me lembre. Desde que era pequeno, tive gente da minha família para cuidar, exceto um curto tempo que tinha uma senhora muito, mas muito velhinha mesmo, daquelas encurvadinhas e toda enrugada, com a idade de um Wookie* velho. Parecia alguém que tinha ficado tempo demais dentro de uma banheira de água morna. Não sei exatamente quanto tempo de vida eu tinha, mas já andava e falava. E uma das memórias marcantes foi um episódio que não sei o que aconteceu, mas ela escorregou, caiu e bateu a cabeça na quina de um armário e desmaiou. Acho que por minha causa. Mesmo com pouca idade, sabia que algo errado tinha acontecido, pois via a pobre senhora japonesa enrugada caída no chão com os olhos fechados. E fui chamar a empregada da casa, que se chamava Janete (obviamente, sempre a chamava de “lanchanete”, como o estabelecimento comercial que serve comidas rápidas, mas pronunciado de forma errada). E descobri que realmente ela não servia para nada, pois ao mostrar a senhora caída no chão, ela se limitou a olhá-la e dizer: “- ih, ela desmaiou!” E continuou fazendo o que tinha que fazer, exceto socorrê-la. Eu peguei o aparelho de telefone e pedi que ela ligasse para minha mãe. Com certa má vontade e descrença, ligou e disse algo semelhante ao que tinha dito para mim: “- olha, dona Helena, a senhora caiu, bateu a cabeça e desmaiou.” Assim, nessa calma. Minha mãe voltou voando como um projétil de arma de fogo, mas acho que na hora que ela chegou, a senhora já estava começando a recuperar a sua consciência. Lembro que a idiotinha da empregada ainda disse: “- viu, dona Helena, não disse que ela ‘só’ tinha desmaiado?”

Avançando algumas décadas, quando a minha filha Maria Eduarda nasceu, por cerca de uns cinco a seis meses, eu e a Raphaela alternávamos as tarefas durante o dia e a noite para cuidar da pequena Duduca, que não nos dava tanto trabalho assim. Mas depois de um tempo, vimos que realmente precisávamos de uma babá para ela, até porque estava crescendo e tomando mais o nosso tempo. Não que fosse coisa desagradável, mas às vezes, eu tinha que sair para fazer alguma cirurgia ou procedimento e não tínhamos com quem deixá-la.

No longínquo bairro de Santa Cruz, onde meu sogro tem uma fazenda, tinha esta pequena criatura (pequena mesmo, ela tem no máximo 1,45m de altura) que já tem uma filha um pouco mais velha que a Duduca e que se dispôs a trabalhar de babá. A R. Sempre trabalhou bem, a Duduca adora ela, atenciosa com as crianças, cuidadosa com a maioria das coisas, um pouco marrenta (todo baixinho é invocado, e ela não fugiu a regra), mas gente boa. Ela ficou trabalhando como babá até 2009, quando ela já estava meio desanimada com o trabalho e tinha arranjado alguém para sustentá-la. E com a Raphaela engravidando de gêmeos, ela picou a mula e caiu fora. Disse que não teria a menor condição de ficar numa casa com gêmeos e mais uma menina hiperativa. Ficamos um pouco receosos de como a Eduarda reagiria, mas ela sempre foi muito sociável, não dando muito trabalho para adaptação com outras babás.

Neste momento começou a saga interminável de procura, seleção e adaptação de babás. Aliás, assim como empregadas domésticas, secretárias e outros tipos de empregados, é sempre uma “caixinha de surpresas”, usando um jargão esportivo.
Então, não sei onde a Raphaela achou a M., mas foi a primeira babá pós-R. Era uma mulher nova, negra, que falava como se tivesse com oligofrenia, quando falava, pois raramente se manifestava verbalmente na nossa presença. Nessa época, um pouco antes dos gêmeos nascerem, morávamos na casa da minha sogra, num apartamento pequeno. E ela tinha uma capacidade de se esconder num apartamento muito pequeno. Um dia, alguma empregada a viu dentro do banheiro de empregada toda encolhida e perguntou se estava passando mal ou algo assim. Ela diz que não, que estava apenas se escondendo da minha sogra, pois ela a achava muito chata e que não era paga para “receber ordens” dela! E os gêmeos nasceram e ela continuou por pouco tempo até ser dispensada. A Duduca até gostava dela, mas ainda assim, volta e meia perguntava pela Rose baixinha.

Depois dela, vieram outras inúmeras babás, começando com a AP, a nora da empregada/entidade que se materializa esporadicamente na minha casa. Junto com ela, veio a J. Eu já tinha escrito no Twitter sobre elas. A AP é uma mulher negra, magrela que tem um nariz de tomada, cabelos alisados e uma voz rouca. Sempre tratou bem as crianças. Pelo menos era o que a gente pensava. Não que ela as maltratasse, batesse ou fizesse coisa desse tipo, mas contarei mais abaixo. A J, outra mulher negra, de cabelos esquisitos, igualmente alisados, mas parecia um aplique ou algo assim. Tinha uns peitos monstruosos que devia lhe causar algum dano na coluna vertebral. Também nunca vi qualquer sinal que indicasse que ela agredisse as crianças, mas reparava que ela não tinha uma dose de paciência para, por exemplo, tirar um dos bebês do berço. Ela puxava pelo bracinho do bebê. Como disse num post anterior, meus gêmeos têm intolerância a lactose e por isso precisam tomar leites específicos, que custam caro e, por isso, qualquer coisa a mais que eles comessem, refletia como vômitos, cólicas ou brotoejas. E nariz escorrendo. Uma das alergologistas consultada tinha prescrito uma medicação chamada Singulair (“I´m a singulair, I´m a singulair, oh, oh, oh, ohhhh, ohhhh!) igualmente cara para a suposta alergia. A tal da J., além de ser alguém impressionantemente inútil no dia a dia, descobrimos que era mentirosa. Por várias vezes caiu em contradições sobre os mais diversos assuntos. Incluindo a correta administração do Singulair. Ou seja, quando ela lembrava, ela dava a medicação que tinha que ser dada junto com alimentos (frutas). Já a AP, que tinha um péssimo hábito de debochar dos outros, inclusive dos patrões, foi que nos levou a uma certa revolta. A desgraçada, em uma discussão com a Raphaela, por telefone, simplesmente perdeu o juízo e começou a gritar deliberadamente com a patroa! E ela na minha frente. Não tomei qualquer atitude na hora, mas naquela hora vi que já não cabia mais aqui em casa. E o pior, ela não tinha razão na discussão. E mesmo que tivesse, tinha acabado de perdê-la gritando.

Durou uns poucos meses e realmente resolvemos que estava mais do que na hora de mandar as duas embora. A J. que além de mentirosa e preguiçosa, ficava mais tempo na portaria cantando os porteiros do que fazendo suas obrigações. E nem sabemos se ela alguma hora deixou as crianças dormindo sozinhas em casa, com ela na portaria. A AP foi pior. Depois de ela ser mandada embora, ela ainda freqüentou a casa da minha sogra e da minha cunhada, ajudando em faxina. E foi quando ela disse para a minha sogra que os meus filhos NÃO tinham qualquer alergia, que ela tinha toda a certeza disso. E minha sogra quis saber o porquê. Eis que ela diz que ela dava Danoninho para eles todos os dias ou dias alternados e que eles nunca morreram ou ficaram doentes por isso. Seria como dar camarão para mim todos os dias e dizer que só porque eu não morro, apenas fico me coçando e formando lesões pruriginosas não seria alérgico a camarão. Na minha concepção, isso se chama tentativa de homicídio. Ou seja, dar uma substância sabidamente intolerante a uma pessoa significa que está assumindo o risco de causar algo muito grave que poderia levar até a morte. E quando a Raphaela foi confrontá-la sobre isso, ainda fez cara de deboche e desdém. Felizmente, a única coisa que isso tudo causou foram algumas noites mal dormidas, várias roupas, lençóis e travesseiros trocados e lavados e muito nariz escorrendo catarro verde. Ou seja, o Singulair nunca iria servir para absolutamente NADA, com os meninos tendo contato com produtos lácteos. Coincidentemente, após elas serem mandadas embora, os meninos nunca mais apresentaram melecas verdes no nariz. Tampouco vômitos noturnos (exceto, claro, quando eles “roubam” algum alimento com leite da gente). Infelizmente, não temos provas de que ela realmente fazia isso e ela nunca confessaria isso numa delegacia, onde gostaria de ter feito ocorrência. Eu já tinha sugerido colocar câmeras de segurança, mas não levamos a idéia à diante. Uma pena, pois adoraria ver essa criatura ignóbil enjaulada. Ou pelo menos condenada com pena revertida em algum projeto social.

E veio uma senhora muito educada chamada Aparecida, a Cida. Mas infelizmente, ela já tinha se comprometido com uma antiga patroa que também estava para ter gêmeos e ela acabou ficando conosco apenas alguns fins de semana, como folguista. Certamente, ela foi a melhor até agora, além da R. Mas tudo que é bom, dura pouco. Mas a R. resolveu voltar para assumir os três. Agora que os meninos já andam e destroem tudo pela casa, ela achou que dá conta. O problema da R. é na hora da natação deles. Como são dois, precisam de dois adultos para fazer a aula com eles. E a piscina da Fórmula da Água, academia onde eu freqüento, tem a profundidade de 1,50m, ou seja, ela faz um esforço sobrehumano para ficar na ponta dos pés e conseguir ficar com o nariz de fora da água e ainda segurando algum dos guris, fazendo-o bater os pés ou fazê-lo subir em plataformas para pular ou apenas boiar. Hilário, mas me faz ter que entrar na piscina. O que também não deixa de ser divertido fazer aulas com eles!

A Cida até nos indicou algumas pessoas, mas nenhuma funcionou. Veio uma que ficou cerca de 2 horas, viu como seria e disse que não ia conseguir lidar com a situação e foi embora, sem nem pegar o dinheiro da passagem que sempre pagamos. Outras que marcaram diversas vezes e nunca apareceram e não deram satisfação.

Outra, com cara de novinha, ficou um fim de semana e também não agüentou. Realmente, neste fim de semana em questão, os meninos estavam muito agitados e inapetentes e, com isso a Raphaela surtou, assustando a guria. Que também não demonstrava muita iniciativa, o que para nós é fundamental.

Teve um outra, grandona, muito feia, que parecia a noiva do Frankenstein. Na verdade, ela nem achei muito ruim, mas a Raphaela não gostou e a dispensou. Para mim, foi certo alívio, pois tinha medo da cara dela. Ela tentava sorrir, mas o sorriso dela era tão medonha quanto a cara dela normal. Tinha uns pés que pareciam pés de avestruz. E era feia, feia demais! Coitada, feia e assustadora. Espero que não seja feia, assustadora e desempregada.

Até a semana passada outra senhora trabalhava para a gente. A N.. Ela é baixa, não tanto quanto a R., que é praticamente do tamanho da Shizuka, minha Scottish terrier. E ela me lembrava muito o personagem Ariete, do He-man. Um cara baixinho que usava um elmo e dava cabeçadas para arrombar portas ou destruir inimigos. E apesar de ter passado poucos fins de semana, os meninos já tentavam balbuciar seu nome, saindo algo como “ah-ia-iá”, o que levou a uma crise de ciúmes da R. Nome este que nem passa perto do que os moleques balbuciam! Mas também outra sem muita iniciativa. E fez uma coisa que me desagradou muito. Num dia de domingo, resolvi levar os gêmeos e a Eduarda pro Botafogo Escada Shopping e ela foi junto para ajudar. A Duda ficou no parquinho que tem lá e fiquei batendo perna pelo shopping, quando resolvi tomar um frapuccino de caramelo e chocolate do Starbucks. Eu perguntei a ela se ela queria algo, tipo café (todo mundo gosta de café, né? Menos eu) ou pão de queijo. E ela negou dizendo que não estava com fome. Quando chegou o meu frapuccino, ofereci por educação, crente que ela iria recusar. E ela aceitou... Tomou um gole do meu frapuccino! Na hora, fiquei sem ação. Afinal, eu era o culpado de ela ter aceitado, pois eu tinha oferecido! Mas não era para ela ter aceitado! Eu que não tivesse oferecido, mas aí, me sentiria mal por ter sido mal educado. Nem contei isso para ninguém, mas foi uma situação esquisita. Talvez o esquisito nesta história seja eu. Mas era a primeira semana que ela ficava.

Este fim de semana quem está aqui em casa é uma outra senhora, negra, alta, feia, com um nome estranho (Raiane ou algo assim) e que quase não fala. Só que ontem, quando voltei da corrida, por volta do meio dia, ela estava esparramada no sofá de casa, dormindo de boca aberta e não acordou quando entrei. Foi acordar um tempo depois, quando comecei a fazer mais barulho e a Eduarda começou a gritar. Ou seja, começou mal. Mas essas coisas só acontecem comigo, o que faz com que a Raphaela ache que eu sou implicante. Num momento desses, eu lembro que teve uma babá que fedia. Tinha o cheio do corpo muito forte, mesmo logo após tomar banho. Era impressionante. Graças a Deus, a Raphaela também não gostou dela (por outros motivos) e a dispensou.

Resumindo, passaram babás baixas, muito baixas (que continua), altas, assustadoras, com peitos que mais pareciam entrepostos da Parmalat, pessoas com nariz de tomada, gordas, com cabelos duros ou alisados, interessadas ou não, com iniciativa ou não, responsáveis ou não, e todas feias...

*Wookie: Aquele gorilão do Star Wars, o Chewbacca. O próprio Chewbacca era um wookie de 400 anos de idade.